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Conto: Cartas a Aline

Conto: Cartas a Aline, de Eber Urzeda dos Santos

Capa do conto Cartas a Aline, contém uma mulher escrevendo cartas
Cartas a Aline

Conto: Cartas a Aline: Espelhos de Papel

Era precisamente meia-noite. As badaladas dos sinos da antiga igreja ressoavam distantes, criando um contraponto sinistro ao silêncio que envolvia a cidade. Sob a luz prateada da lua, figuras enigmáticas emergiam nas ruas, bruxas e seres misteriosos, sedentos não apenas de glicose, mas de algo inominável que pairava no ar frio e úmido da noite de Halloween. Os odores da estação, um misto de folhas apodrecidas e terra molhada, se misturavam com o perfume distante de velas e incensos.

Aqueles que não participavam dessas celebrações sombrias já estavam acomodados em seus leitos, encolhidos sob cobertas, como se pudessem sentir os olhos curiosos que espreitavam suas janelas. Foram noites intermináveis de espera para Aline. Na janela de seu quarto, meio oculta por cortinas rendadas que tremulavam com a brisa, uma vela solitária queimava, sua chama trêmula projetando sombras caprichosas na parede. Através do tênue véu da cortina, os olhos atentos de Aline, faiscando com uma mistura de temor e fascínio, espiavam o movimento das sombras noturnas.

Elas dançavam e se esgueiravam pela calçada, enquanto figuras enigmáticas passavam, algumas com olhares dissimulados e inescrutáveis direcionados à caixa de correio de sua casa. A esperança romântica de Aline a fazia pensar que uma dessas sombras poderia ser o complemento de sua alma, o namorado ansiado e desejante. No entanto, algo em seu íntimo, uma voz sussurrante e incômoda, lhe dizia que a sombra que tanto aguardava seria tudo, menos um príncipe. Pois sua consciência, amadurecida e implacável, proibia e censurava qualquer ato infantil, reprimindo sonhos de contos de fadas no auge de seus dezessete anos.

***

Jovens estudantes saíam aliviados e exaltados do colégio, suas faces iluminadas pelo brilho de triunfo, no último dia de aula. A etapa da vida estudantil que havia sido um labirinto de desafios e medos estava, enfim, completa. Com gestos teatrais, eles rasgavam os cadernos, arremessando as folhas ao vento que as carregava em um frenesi. A rua banhou-se de branco, um mar inquieto de papel, e os risos e gritos formaram uma cacofonia de liberdade. A luz do entardecer iluminava a cena, criando sombras longas e distorcidas que dançavam na calçada.

Atrás da algazarra, separada da alegria como uma ilha de incerteza em um oceano de êxtase, Aline observava incrédula o espetáculo. Seus olhos, sombreados por uma nuvem de dúvida, não encontravam motivos para risos nem gozos. “O futuro é incerto!”, repetia ela a si mesma, uma frase que ressoava em sua mente como um gongo. Seus cadernos e livros, ainda intactos, permaneceram protegidos junto ao peito, símbolos de uma ordem que ela se recusava a quebrar. Ela cerrou os dentes, franziu as sobrancelhas, e cruzou o mar de adolescentes tristes mas de risos largos, seus passos deixando ecos silenciosos de uma melancolia não compartilhada.

O caminho à casa, feito a passos curtos e pesados, tornou-se uma marcha solitária que fora apenas o prenúncio da aflição dos dias seguintes. E agora quê? E agora quando? E agora como? E agora quem? O amanhã apresentava-se como um labirinto sem fim, confuso, e as dúvidas traziam-lhe à mente as folhas em branco, atiradas por gente cheia de certezas vazias e de alegrias veladas. A imagem das folhas subindo velozes e unidas em uma dança caótica assaltava sua mente. Porém, uma vez alcançado o limite da força propulsora, caiam separadas, caiam leves, caiam sem a preocupação de onde iam pousar, como sonhos dispersos pelo vento frio do destino.

Aline abriu o portão devagar, seu toque hesitante fazendo a ferrugem chiar em um lamento sutil, mas ela não entrou. Parou, deixando-se levar em pensamentos pelo caminho, enfeitado por canteiros de tulipas coloridas, cujas pétalas pareciam tingidas pela luz dourada do entardecer. O perfume delicado das flores encheu o ar, mas em sua mente, ela se viu saindo de casa, sob o choro dos que a olhavam de lado, e das pessoas a transportar seu ataúde, suas faces marcadas de angústia, reclamando do peso, agonizando-se pela lentidão dos demais.

Com um suspiro profundo, ela se virou a contemplar a beleza de sua rua, mas falhou em encontrar conforto na imagem familiar. A nostalgia a atingiu como uma lâmina, ao ver-se, ainda criança, correndo pelas calçadas mórbidas, por onde rastejava-se gente avulsa, suas sombras alongadas pelo sol poente. Então, com um impulso súbito, desejou esquecer-se de sua infância e projetou-se para dentro de sua casa, debatendo-se nos móveis e paredes como fazem os loucos, guiados por uma força contrária à razão. Os movimentos eram involuntários, quase frenéticos, tamanha a vontade de ferir a própria alma, ao olhar com escárnio para dentro de si, para aquilo que se tornara.

Entrou na residência sem uma palavra, não esperando nem aceitando cumprimentos pelo fim de curso, como se a celebração fosse um veneno para sua inquietação. Subiu direto para o andar de cima, o som de seus passos perdendo-se na quietude da casa. Trancou-se no quarto e atirou seus cadernos sobre a cama com uma raiva silenciosa. Um deles quicou sobre o colchão macio e abriu-se no ar. Dele saiu a voar um envelope cor de pêssego, cuja textura parecia vibrar com uma energia peculiar. Caiu pesado aos pés de sua escrivaninha e pareceu gritar, um som imaginário que ecoou em sua mente.

Por um momento agonizante, ficaram os dois entreolhando-se, o envelope e Aline, em um duelo silencioso. Assustada e curiosa, Aline, ainda ofegante pelos degraus da escada e pelo susto da carta voadora, ajoelhou-se sem intenção de tocar o envelope. À luz da janela, o contraste do mosaico dos cristais mesclava-se com o tom de pêssego, dando formas fortes e sedutoras às letras cursivas. As palavras pareciam dançar diante de seus olhos, e algo nelas fez gelar o seu coração, uma premonição fria e implacável: “A Aline.”

Tomou a carta com cuidado, como se fosse algo frágil e precioso, acariciou-a e deixou que as letras de seu nome penetrassem em sua alma. As palavras pareciam ganhar vida, atingindo-a como os lampejos da lenda do amor à primeira vista: que arrepiam a pele, aquecem o coração e expulsam o senhor de sua própria morada. Sob a iluminação suave do quarto, as letras cursivas pareciam quase dançar. Aline abriu o envelope com dedos trêmulos, os sons suaves do papel se rasgando ressoando em seus ouvidos como uma melodia silenciosa e misteriosa.

Retirou de dentro um papel de carta rosado, com sombras escuras e gravuras em forma de corações e de flores, tão delicadas que pareciam ter sido desenhadas com uma pena macia. Desdobrou-o e antes que pudesse ver o texto, sentiu um aroma agradável e apaixonante que parecia emergir das próprias palavras. Era um perfume suave, como de flores silvestres, que lhe invadiu os sentidos, envolvendo-a numa sensação quase etérea.

Levantou-se do chão sem tirar os olhos da carta, os músculos de suas pernas ainda tensos pela expectativa. Sentou-se cômoda na cama, as almofadas abraçando suas costas, e pôs-se a ler, sua voz interior dando vida às palavras:

Querida Aline,

Peço que perdoe minha aparente covardia ou, talvez melhor expresso, a insegurança que me levou a escolher estas letras frias, em vez do calor de um diálogo, para confessar sentimentos que vão além da simples amizade que cultivamos ao longo dos anos. Não obstante, Aline minha, sinto-me atormentado pela complexidade das emoções que despertaste em mim.

Encontro na tríade de Eros, Philia e Ágape a explicação para a intensidade do que sinto. São formas distintas de amor que, unidas, definem minhas emoções por ti: o amor impulsionado pelo desejo, a afeição nascida da amizade e um amor incondicional e profundo que me envolve sem explicação.

Porém, amada Aline, desconhecendo os teus sentimentos, confesso que a mesma insegurança que me impede de expressar-me face a face também me dificulta em prosseguir com esta carta. Meus conflitos internos me confundem, e sinto-me perdido na busca pelas palavras que possam transmitir, com a devida elegância, o que em mim se agita. Sendo assim, querida Aline, terei que acalmar o espírito, doutriná-lo à luz do amor sincero, para não profanar o que em mim sente-se afetado por ti…

O mundo pareceu parar enquanto ela lia, cada palavra gravando-se em sua mente e coração. O quarto estava em silêncio, exceto pelo sussurro distante do vento nas árvores e a respiração suave de Aline, mas o conteúdo da carta parecia reverberar em sua alma, um eco profundo e enigmático que não se dissipava.

Aline franziu a testa, seus olhos se arregalaram levemente, e ela recuou, como se tivesse sido levemente empurrada por uma mão invisível. A carta, com sua linguagem melosa e romântica, estava em agudo contraste com suas preferências literárias, habituada que estava a leituras punks e narrativas que mesclavam amor com terror e suspense. O quarto em que se encontrava, preenchido com livros e pôsteres que refletiam seus gostos peculiares, parecia agora estranhamente silencioso, e a luz do entardecer lançava sombras que dançavam nas paredes.

Tomando um gole d’água de um copo que repousava sobre uma mesa antiga, com uma superfície gastada pelo tempo, ela tentou acalmar a confusão de sentimentos. O gosto da água era simples, mas a sensação de frio em sua garganta lhe trouxe um momento de clareza. Releu a carta, desta vez permitindo-se mergulhar nas palavras, entregando-se ao prazer inusitado de sentir-se desejada. A melodia das palavras, antes tão estranha, agora soava diferente, tocando uma corda dentro dela. A paixão do texto a fez sentir-se amada, quase como uma melodia tocada ao piano em uma sala vazia, ressoando através do silêncio.

Mas quem poderia ser o autor? Aline virou e revirou a carta e o envelope em busca de uma assinatura ou pistas, mas nada encontrou. Dobrou a carta com cuidado, suas mãos trêmulas, e colocou-a de volta no envelope cor de pêssego. Deitou-a devagar sobre a cama e cobriu-a com o seu travesseiro, como se escondesse um segredo precioso.

O quarto, com sua mobília clássica e as cortinas fechadas, parecia guardar o mistério da carta, e o cheiro de velhos livros misturava-se ao aroma de uma vela perfumada que ela costumava acender. “Talvez à noite, à luz de velas, a carta possa dizer-me mais sobre si, sobre mim e sobre o seu redator!” disse Aline, sua voz um sussurro quase inaudível, já mergulhada no poço dos desejos, enquanto as sombras continuavam a dançar, quase como se estivessem vivas.

***

Três dias após a primeira carta, Aline encontrou-se presa em uma espera angustiante. Desistiu de esperar mais notícias de seu admirador oculto e entregou-se aos livros, como quem busca um consolo nas páginas de papel. Lia tudo que tinha, tudo que conseguia, seus olhos varrendo as linhas com uma fome insaciável. Terminada as novidades editoriais de sua casa, ela pediu novos romances em um site de compras, uma tentativa frenética de preencher o vazio que a espera lhe causara.

Da janela de seu quarto, um observatório solitário adornado com cortinas pesadas e objetos antigos, viu a moça dos correios aproximar-se de sua casa. Seu coração deu um salto, e ela desceu as escadas em largos saltos, quase tropeçando na ânsia. Abriu a porta com um ranger que soou como um suspiro e correu em direção ao portão.

— Bom dia, como vai? — Aline cumprimentou a moça, tentando esconder a esperança em sua voz, e tomou para si o pacote de livros, sentindo o peso familiar do papel. Assinou a entrega, despediu-se, e tomou o caminho de volta, a passos tristes, quase trôpegos, cada passo uma lembrança do silêncio ensurdecedor.

— Espere, por favor! — disse a moça dos correios, sua voz cortando o ar como uma lâmina fina — Ainda tem uma carta aqui. O endereço é o seu, mas não consta o sobrenome, apenas: A Aline!

Aline, ao ouvir seu nome como destinatária, sentiu um aperto no coração, uma mistura de terror e desejo, e virou-se de pronto. Com o braço estendido, a moça dos correios tinha à mão um envelope cor de pêssego, um gêmeo daquele que ela escondera. Ela avançou sobre a carta como quem toma um tesouro e correu para dentro, a urgência óbvia em seus movimentos.

Atirou o pacote de livros sobre o sofá da sala, uma pilha de promessas esquecidas, subiu para o seu quarto e trancou-se por longas horas, como se o mundo lá fora pudesse desvanecer. Sentada na cama, sob a luz suave de um abajur que lançava sombras suaves, comparou os envelopes e a letra cursiva, sentindo o coração palpitar em um ritmo frenético, mas abriu-o com uma serenidade forçada.

Retirou a carta (de papel idêntico ao da primeira), e o aroma desprendido trouxe-lhe de volta a paixão que sentira, como um perfume que evoca memórias escondidas. “Não sei se o amo, pelo carinhoso detalhe das cartas, ou se o odeio, por fazer-me esperar tanto!” pensou Aline, uma tempestade de emoções em seu rosto, e pôs-se a ler, as palavras a chamando para o desconhecido.

Querida Aline,

Perdoe-me a demora, amada Aline! Foram dias de intensa luta, cheios de incertezas que quase roçaram o nefasto; mas aqui estou, sentindo-me firme no caminho que tracei para mim: o de querer você! Falei com a razão, e ela, em sua frieza, não me viu como príncipe, mas como um humilde operário. Quisera eu ser um operário das letras, mestre nas palavras; no entanto, mal as conheço, pois me foram reveladas em breves momentos, durante uma infância dominada pelas máquinas.

Ainda assim, embora minha escrita possa carecer de coesão e coerência, e talvez até tropeçar em sua própria simplicidade, saiba que minha intenção, minha única e verdadeira missão, não é outra senão mostrar o que sinto. É um sentimento que não pode ser contido, mesmo nas frases mais desajeitadas e nas construções menos melodiosas. Amo-te, Aline, amo-te com a sinceridade de quem não pode fingir elegância, e com a paixão de quem sente cada batida do coração como um eco do teu nome…

Aline sentiu um arrepio ao ler as palavras, a caligrafia mais apressada que antes, como se escritas sob uma urgência desesperada. Apesar de negar a gramática, a carta era tão apaixonada como a primeira, mas com palavras menos técnicas e filosóficas. Para Aline, além do texto em si, as entrelinhas pareciam denunciar a calmaria de alguém que busca repreender uma paixão dolorosa, como quem tenta controlar um fogo que ameaça consumir.

De certa forma, o amante das cartas parecia preocupado em domar suas próprias pulsões. Era como se o perfume suave do papel, a cor pálida do envelope, fossem símbolos da luta interna de um homem que oscilava entre a razão e o sentimento.

Ela sentou-se junto à escrivaninha, uma peça antiga de madeira entalhada, onde guardava suas lembranças mais preciosas. Posicionou as duas cartas paralelamente, sob a fraca luz que se infiltrava através da janela em meio a cortinas pesadas, conferindo um ar misterioso ao ambiente. Analisou as palavras com cuidado e notou que as orações da segunda eram mais curtas que a da primeira, bem como os períodos.

A escrivaninha estava repleta de objetos que contavam sua história, mas naquele momento, nada era mais intrigante do que as palavras diante de seus olhos. O quarto estava silencioso, mas a quietude parecia carregada, como se as próprias paredes estivessem escutando.

Bastou a segunda carta para perceber que a linha comportamental do amor tem seus altos e baixos regulados pelo tempo. Mas essa percepção não lhe dava conforto; pelo contrário, intensificava a inquietação que crescia dentro dela. O que queria esse admirador? O que escondia atrás das palavras desajeitadas, no entanto tão carregadas de emoção?

Porém, para assegurar-se de sua teoria, teria de esperar a terceira carta, um pensamento que a deixou com uma sensação de expectativa e ansiedade. E enquanto a espera começava novamente, o quarto parecia se fechar sobre ela, as sombras se alongando como se escondessem segredos ainda não revelados…

Três dias mais tarde, Aline já estava consumida pela espera, fixando-se no portão da frente, seus olhos ansiosos à procura da familiar roupa azul e amarela da moça dos correios. Mas dia após dia, a moça passava com um cumprimento frio, quase mecânico, seus olhos desviando do olhar esperançoso de Aline. O cenário se repetiu, um teatro cruel de expectativas frustradas, por mais três dias agônicos.

Já exausta dessa espera inútil, Aline refugiou-se em seu quarto, um espaço preenchido com objetos que agora pareciam observá-la, como um espelho de sua própria desesperança. Estava a ponto de resignar-se quando um som ecoou, palmas vindas do portão. Ela desceu com uma rapidez impulsiva, cada batida do coração amplificada pelo silêncio da casa. Ao chegar, a moça dos correios já havia desaparecido, como uma aparição fugaz. Mas o que a surpreendeu foi o vislumbre de um envelope cor de pêssego, timidamente escondido em sua caixa de correio.

A ansiedade era um redemoinho, obscurecendo a visão, fazendo o buraco da fechadura parecer escorregar sob as chaves trêmulas. Quando finalmente conseguiu abrir, agarrou a carta com uma fúria impaciente, deixando as chaves penduradas, esquecidas na fechadura.

Outra vez, ela se trancou no quarto, outra vez se sentou na cama, imersa na semiobscuridade pontuada pelo brilho trêmulo de um abajur. A carta era uma promessa sussurrada, “A Aline”, e desta vez não houve comparações nem reflexões. A terceira carta foi um sopro de vida, uma esperança precária que a tirou da inércia. Diferente do formalismo da primeira e da informalidade da segunda, a terceira veio-lhe como um soco no estômago, um grito silencioso que ecoou em sua alma:

Querida Aline,

Cansei-me das palavras, ver-te-ei esta noite.

As palavras eram gélidas, cortantes. Pouco importavam as comparações, Aline permaneceu imóvel, petrificada pela certeza crua dessas palavras. Não havia entrelinhas, não havia disfarces: ele viria esta noite, na noite do Dia das Bruxas. A realidade daquela promessa a atingiu com uma clareza assustadora: mais claro, impossível!

Aquela fora a tarde mais longa de sua vida, um desfile interminável de horas que pareciam confabular contra Aline. A ansiedade era uma chama insaciável, consumindo-a, os minutos contados um a um como gotas de um tormento sem fim. Descia à cozinha, onde o cheiro de ervas e madeira tentava acalmar sua mente fervilhante, e cativava simpatias. Subia ao quarto, e ali, em meio ao perfume suave de suas memórias, bailava girando sobre as pontas dos pés, seu rosto refletido nos espelhos velados pela poeira do tempo. Algumas vezes, pegou-se sorrindo, um riso que lhe parecia tão estranho quanto familiar: “os que se sabem amados (pensava ela) sorriem, bailam e cativam simpatias”.

Ao pôr do sol, que tingiu o céu com tonalidades de fogo e paixão, Aline transformou-se. Seus longos cabelos cacheados tinham o mesmo tom escarlate de sua pele ao saber-se amada, um vermelho profundo, ardente como um mar de chamas. Seus olhos, aqueles espelhos da alma, receberam sombras escuras que contrastavam com suas íris claras, brilhando com uma intensidade febril. O vestido preto foi sua escolha, delineando suas curvas, uma afirmação de poder e graça. Dúvidas surgiram apenas com os sapatos: coturno ou salto? Optou pelo salto baixo, pois, naquela noite, sabia-se amada.

Sentou-se na cama, cercada pelas três cartas que se tornaram a bússola de seu desejo, a contar os minutos que se arrastavam, cada tic-tac um martelar em seu peito. Pôs-se a imaginar o misterioso amante das cartas, sua mente desenhando sombras e luzes: — Deve ser corajoso como os príncipes que invadem as masmorras a salvar princesas covardes. Deve ser paciente como os príncipes que aguardam o momento certo de matar os dragões e beijar as princesas impacientes. Deve ser um grandessíssimo idiota como os príncipes que vão ao bar e deixam em seus castelos suas princesas a mendigar poesias…

À meia-noite em ponto, o relógio soou como um grito no silêncio da noite, e Aline levantou-se da cama furiosa, cada batida ecoando sua decepção. Sentou-se junto à escrivaninha, onde o abajur lançava um brilho triste sobre objetos que pareciam guardar segredos. Abriu a gaveta, retirou de dentro um maço de envelopes cor de pêssego, um bloco de papel de cartas rosado com sombras escuras e gravuras em forma de corações e flores, símbolos agora irônicos de seu sentimento. Pôs-se a escrever, as palavras fluindo como uma torrente liberada:

Querida Aline,

Liberte-se: agora eu já sei como se sentem as pessoas que se sabem amadas!

Eber Urzeda dos Santos

Cartas a Aline
Nuremberg – 14/03/2020

Coleção: Trevas do Eu. Disponível na amzon.com.br

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“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência”.

Resenha Cartas a Aline
Resenha Cartas a Aline

Resenha: Cartas a Aline

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